A CULTURA QUE PERMANECE, MESMO NA ARTIFICIALIDADE

Quando era adolescente, no início da década de 1990, o consumo de música era feito através da compra de fitas K7, LPs e posteriormente CDs, ou mesmo isso se fazia através do rádio, quando por telefone ou até por carta, os ouvintes pediam e dedicavam as suas canções favoritas.

O tempo passou, na segunda metade da década de 1990 apareceu uma revolução, os computadores domésticos e o acesso à internet, lenta e discada (utilizando modem, rede telefônica doméstica, e um disco de instalação de provedores, como o antigo IG ou AOL). A indústria musical foi impactada, gradualmente.

Quanto mais o acesso a internet se tornou massificado, e a velocidade das conexões aumentavam, maior a necessidade da indústria musical se reinventar, com a queda vertiginosa da venda de CDs – primeiro devido a concorrência com a pirataria, e depois com o desenvolvimento do streaming (baixar músicas, no formato em MP3).

Com a venda de CDs em baixa, a indústria se reinventou através dos shows e eventos, que se tornaram a principal fonte de renda dos artistas. E no desenvolvimento dos smartphones e das múltiplas mídias, hoje os músicos lançam seus álbuns, músicas, primeiro em streaming, como no serviço oferecido pelo Spotify (recomendo ao leitor).

Veio a crise pandêmica do covid19, e novamente a classe artística vai necessitar se reinventar. Com o isolamento social em nosso país, os eventos, shows, serão uma realidade distante. E as mídias digitais, antes inimigas do artista, são agora o seu ancoradouro.

A sucessão de Lives mostram a adaptação, porém há uma perda – no meu entender: sai o improviso e o inusitado que seria abrir um pouco a intimidade do artista, agora tocando, cantando, dentro de casa, e entra o instrumentalismo, o espetacular, mesmo dentro do espaço íntimo do artista. Monta-se um verdadeiro estúdio, quando o esperado é que o artista esteja desnudo de muitas de suas “maquiagens”, mostrando-o na sua crueza, na sua humanidade, como nós dentro de casa.

O caráter espetacular, que artificializa a iniciativa, pode ser verificada no propagandismo. Afinal, durante as apresentações domiciliares tudo é um oferecimento do magazine x, bebida y, etc. Quando a essência é minimalista, o que se tem é um show em miniatura, maquiado e artificial.

Uns podem me contradizer e afirmar que não há como fugir do espetáculo, afinal o artista tem seus boletos também. Compreendo, ainda mais em tempos onde a economia retrai, anunciando tempos difíceis, de carestia. Quem sabe isso uma hora até me atinja, e eu, resignadamente, produza uma aula, um texto, um vídeo, com o oferecimento do extrato de tomate, da cerveja que desce, da faculdade à distância z, do aplicativo w.

O mais interessante nisso tudo é que como a natureza, em constante transformação (assim falava Lavoisier), a cultura está ai, vívida, permanente.

Enfim, gostaria de desafiá-los, vá ao canto mais obscuro de casa e pegue aquele velho CD, LP. Escute-o. Faço o mesmo, e num próximo texto vamos conversar sobre a experiência de revisitá-los.

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TIago Menta

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