ADEUS MOJICA

(1936-2020)

Professor Tiago Menta

No final da tarde do último dia 19 uma broncopneumonia encerrou os 83 anos de vida do cineasta José Mojica Marins (nascido numa sexta-feira 13 em março de 1936, filho de um gerente de cinema), confundido com a sua maior criação-personagem: o coveiro Josefel Zanatas (Satanás de trás pra frente) ou “Zé do Caixão”.

Mojica, cuja biografia é apresentada na obra “Maldito – a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão” (de André Barcinski, Editora 34), foi um diretor do “cinema marginal”, de baixo orçamento e enorme criatividade, utilizada também para driblar a censura da Ditadura Militar.

O Zé tem origem num pesadelo do próprio Mojica (onde um coveiro assustador arrastava-o para uma tumba) e a aparência (o uso das longas unhas, cortadas em 1997 durante um show da banda de metal Sepultura em São Paulo) e indumentária tem inspiração numa antiga obra do cinema de horror “Nosferatu” (filme do expressionismo alemão, dirigido por Friedrich Murnau – 1922).

Sobre o pesadelo que originou o personagem, deixo a narrativa de Mojica, apresentada em sua biografia:

Era um sujeito baixo, magro, vestido de negro da cabeça aos pés. O rosto era familiar, o queixo pontudo, as sobrancelhas espessas, a barba rala.

Olhei fixamente para o homem e confirmei o que temia. Era eu mesmo!

Sem dizer nada, me pegou pelos braços e me arrastou pelo terreno acidentado. Não era um jardim, mas um cemitério! Gritando de desespero, fui arrastado por entre sepulturas. Parou em frente uma cova aberta. Levantei os olhos e li a inscrição na lápide: JOSÉ MOJICA MARINS – 1936 –

Num reflexo, fechei os olhos, para não ler a data da morte. O clone começou a me empurrar para a cova aberta...

Acordei empapado de suor, eram quatro da manhã e Rosita me abraçava [...]

A motivação do personagem Zé do Caixão seria a busca pela mulher digna de gerar o seu primogênito, superior e perfeito. No seu profundo egoísmo, tencionava viver eternamente via a “continuidade do sangue”. Tal busca abre espaço para cenas que dialogam o horror e a sensualidade, e portanto o teor sexual era bem presente em seus filmes, como: “À meia-noite eu levarei a tua alma” (1964), “À meia-noite eu encarnarei no teu cadáver” (1967), “O estranho mundo de Zé do Caixão” (1968), etc.

O cinema de Mojica passou por seus “altos e baixos”, e por longo tempo o diretor viveu uma espécie de ostracismo, sobrevivendo de filmes ao estilo “boca do lixo” – produções paulistanas de baixo orçamento cuja temática era o sexo, e que pipocavam nos cinemas dos centros urbanos do país, alguns utilizados até mesmo como pontos de prostituição.

Com a redemocratização, na segunda metade dos anos 1980, e a substituição gradual do VHS para os DVDs, já na década seguinte, a filmografia de Mojica acabou resgatada e mesmo difundida internacionalmente – tornando a obra do diretor “Cult”, numa espécie de mestre do exploitation brasileiro.

A “cult-irização” de Mojica atinge seu momento máximo quando por quase dois anos (1996-1997) ele apresentou o Cine Trash (Cine Sinistro) na TV Bandeirantes, sessão semanal e diurna de filmes gore e que depois passou para as noites de sábado até chegar ao seu final, esgotado pelo sistema de classificação indicativa.

Entre 2006 e 2013 Mojica produziu o filme que encerrava a trilogia do Zé do Caixão “A Encarnação do Demônio” (última aparição também do ator Jece Valadão, falecido pouco depois do lançamento do filme) e apresentou por sete temporadas no Canal Brasil o programa de entrevistas “O estranho mundo de Zé do Caixão”.

Há três anos, segundo familiares, Mojica vinha sofrendo com problemas de saúde, e estava internado desde o mês de janeiro deste ano.

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