A FORMAÇÃO DO POVOADO DE ATIBAIA

por Lilian Vogel

Conhecer as origens de nossa cidade de Atibaia e sua bela história é conhecer um pouco mais sobre nós mesmos. De acordo com os registros da época, depois da criação do colégio dos Jesuítas em Piratininga no ano de 1554, a vila de São Paulo teve um desenvolvimento lento, em comparação às áreas do litoral. Vencer a Serra do Mar não era uma tarefa fácil e poucos povoados surgiam pelo interior. A vegetação do planalto não era coberta por uma densa floresta, mas sim um local de campo e mata e, este clima impressionou o colonizador, que chegou a comparar a abundância da água à vários lugares de Portugal.

Com o passar do tempo, a agricultura começou a se desenvolver, sendo ainda pequena no século XVII. Com a penetração das Bandeiras pelo interior, esta agricultura ganhou novas dimensões, não deixando de ser aquela destinada à subsistência como o milho, o feijão, a cevada, o arroz, o trigo e a mandioca. Criavam-se algumas vacas e aves, e surgiram algumas fazendas pelo interior, que por vezes eram abandonadas pois seus donos também se embrenhavam pelos sertões nas expedições. Alguns deixavam mulheres e filhos cuidando das terras e quando retornavam faziam melhorias na propriedade e comercializavam as produções.

Na Vila de São Paulo, outras atividades surgem, além do comércio e das funções públicas. Com isto as atividades religiosas, os contatos sociais e a troca de informações trazem a elevação dos cargos públicos e as famílias entram para o poder. Nesse cenário, em meados do século XVII, existiam na Vila de São Paulo, dois grandes partidos rivais, representados por duas importantes famílias: Pires e Camargo. Os Pires descendiam dos portugueses e tinham como aliados os Taques, os Cunha e os Leme, que faziam uma oposição constante tanto na Câmara como nos debates de rua aos Camargos e Buenos. Em seu livro História de Atibaia (1950, p. 8), o autor Waldomiro Franco da Silveira chega a descrever o tenso clima político que se passava na região:

“De um lado os Pires e do outro os Camargos; e com os Pires, a família dos Taques; amigos dos cabeças dessas duas façções intervêm sem obter uma reconcialição satisfatória; os disques aumentam o dissídio separando cada vez mais os membros dessas duas famílias: Fernão e Pedro Taques odeiam-se, a vila os vê agora com rivais irreconciliáveis. ”

Devemos também ressaltar que os Pires eram defensores dos Jesuítas e os Camargos seus inimigos, motivo pelo qual os jesuítas foram expulsos. Esta rivalidade entre os Pires e os Camargos também não deve ser explicada totalmente pela oposição desde os jesuítas, mas entendida também como um reflexo das constantes brigas na Europa entre Portugal e Espanha. Destas duas facções, surgiram uma série de fatos violentos e mortes, que culminaram com o afastamento dos Camargos da governança de São Paulo em 1653, e com a vinda de Jerônimo de Camargo e sua família para estas terras do interior paulista, onde fundaram a cidade de Atibaia em 1665. Logo depois do nascimento do povoado de Atibaia e como conta a nossa história, o mesmo Jerônimo de Camargo construiu uma Igreja, em louvor a São João Batista, mas infelizmente quase não há documentos referentes a este fato.

Para entender melhor essa época, é importante relembrar que a distribuição de terras pelo sistema de sesmarias era feita através de um ponto de partida. No caso de São Paulo, era através do planalto de Piratininga. No sertão Bragantino as primeiras concessões de terras datam de 1638, em terras atibaianas. É a sesmaria que Garcia Rodrigues Velho recebeu juntamente com Manuel Garcia, compreendendo “meia légua de testada para o lado do sertão até o rio Ibaatibaia”. Os pretendentes às sesmarias poucas vezes cultivavam o solo e raramente faziam benfeitorias ou se estabeleciam de imediato nos locais. Havia um prazo de cinco anos para o seu aproveitamento, mas estas regras raramente foram obedecidas pela falta de controle destas ocupações. Porém essas terras da nossa região não foram ocupadas somente pelos colonizadores. Sabemos que antes da chegada dos índios guarús ou guarulhos em Atibaia no ano de 1655, já haviam sido concedidas cerca de quinze sesmarias na região. No inventário de Miguel Garcia Velho, em 1654 ele se refere a algum “gentio” seu por estas paragens, certamente indígenas escravizados cuidando de algumas lavouras ou criações.

Sabemos também que em 1676, Matias Lopes mandou erguer à margem esquerda do Rio Atibaia uma Igreja para a invocação de Nossa Senhora de Nazaré. Logo um núcleo populacional se desenvolveu no local, alargando o território de Atibaia. Assim a freguesia crescia e outros órgãos de serviços oficiais eram implantados para atender às exigências do novo núcleo.

Com isso, em meados do século XVIII e com o aumento das expedições de bandeirantes desbravando as terras do interior, Atibaia tornou-se uma das vias mais importantes para chegar às Minas Gerais. Talvez este caminho tenha sido aberto por Matias Cardoso de Almeida, conhecido como o sertanista que afugentou os índios lopos da região (nome este dado à Serra dos Lopos que divide as cidades de Bragança Paulista e Joanópolis com as cidades de Minas Gerais) ou por algum outro desbravador que se aventurou nessa região.

Precisamos também lembrar que, sem muitos registros da época, esta divisão territorial das sesmarias e a então formação das cidades paulistas é muito questionada pelos historiadores. Além dela, há também a teoria de que o Padre Matheus Nunes de Siqueira tenha sido o verdadeiro fundador da cidade de Atibaia. Assim, os dois homens apontados como os fundadores desta cidade, um sendo político e outro pertencente ao clero, possuíam algo em comum: eram ambos ligados ao bandeirismo.

Superando as dificuldades da época e os vários desafios, Atibaia sempre se manteve como referência na região, e desenvolveu-se rapidamente. Em março de 1713 o Sr. Capitão João Telles Fogassa foi nomeado como Juiz da Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré de Atibaia, o Sr. João de Campos como Escrivão e como Alcaide, o Sr. Jacinto da Costa. Após alguns anos, em 1761 a Câmara de São Paulo sugere a condição de vila para o povoado de Atibaia, mas a maioria dos povoados da época tinham dificuldade de custear suas despesas, principalmente após a extinção da capitania de São Paulo e sua anexação à do Rio de Janeiro. Com isso, Atibaia permaneceu um povoado pequeno, com uma economia primitiva, ligada à agricultura de subsistência. Segundo os registros, no ano de 1767, a população de Atibaia era de 1.506 habitantes e havia 514 cavalos e mulas e 381 cabeças de gado. Também a população escrava era de 354 escravos cativos.

Somente em 5 de novembro de 1769 é erguido o pelourinho, ou seja, o símbolo da criação da vila. Geralmente o pelourinho era uma coluna de pedra, colocada em local visível e que também era usada para a exposição dos criminosos e os castigos dos escravos. Naquela época, uma parte da população também era formada por agregados, ou seja, pessoas que poderiam ser ex-escravos que depois de libertos pelos seus donos, continuavam a viver nos mesmos sítios apenas em troca de casa e comida. Esta população se concentrava mais na área rural, vindo para o centro da vila apenas nas épocas das festas e ofícios religiosos, principalmente na época de São João e nas festas do Natal. É nesta época que surgem as primeiras festas, do que hoje chamamos de “Festas do Ciclo Natalino”, e os primeiros grupos de congadas da cidade, que começam a se reunir nas tardes do dia 25 de dezembro, com o levantamento dos mastros em louvor aos seus Santos de Devoção: Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, estendendo esta festa até o Dia de Reis.

Não podemos esquecer que a maior parte desta história que conhecemos hoje é contada oralmente. Quase não há registros deste tipo de festas, ditas populares e realizadas por pessoas consideradas humildes e sem expressão que merecessem registros por escrito. Mesmo nos livros de Tombo da Igreja, as festas são mencionadas, mas não há uma linha sequer que trate da presença dos grupos de congadas nas mesmas. Mas elas existem e deixaram de ser anônimas. A população se apoderou destes rituais, a Igreja permitiu sua continuidade e o poder público apoiou. Nos dias de hoje, as igrejas foram reformadas, restauradas, os festeiros, ora uma família, ora uma comissão com mais de vinte nomes, mantêm viva essa tradição de séculos que faz parte das nossas raízes. Apesar de tudo, as tradições sobreviveram.

Hoje, nossa cidade é conhecida como  Estância Turística e  a “A Cidade das Flores e Morangos”,. Temos uma economia voltada para a agricultura, o turismo de negócios e empresas de pequeno porte. Estamos localizados na confluência de duas estradas importantes para o escoamento de produtos e serviços. Mesmo assim, conseguimos ainda manter muitas tradições seculares e abraçar todos que desejam viver nestas terras.

Lilian Vogel é pesquisadora de Folclore e Arte Popular, responsável pelo Museu Municipal João Batista Conti de Atibaia. Presidente da Comissão Paulista de Folclore, Membro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histório, Artístico e Arquitetônico de São Paulo - CONDEPHAAT e

Membro da Diretoria da Comissão Nacional de Folclore