A MINHA EXPERIÊNCIA NAS ARTES PLÁSTICAS E NA POESIA: EU, NESTOR LAMPROS

por Nestor Lampros

Minha experiência no âmbito das artes, já que manejo as artes pictóricas e gráficas e o uso das palavras na poesia, é de que elas sempre me ressurgem e “ressugerem” mundos possíveis em meio à multiplicidade de conteúdos pessoais e da realidade que nos cerca. Quer dizer, apresentadas as realidades, quero compartilhá-las com o maior número de pessoas possível para enriquecer vivamente a existência e o olhar do outro.

 

Digo realidades, no plural, pois se trata do material diverso em que encontro temas para meus trabalhos nas artes plásticas e na poesia.

 

É necessário dizer que isso significa, também, “reaprender a desenhar e a pintar”, em algum momento, Pois, após um surto ou uma crise mais grave da esquizofrenia, às vezes padeço de crise criativa ou mesmo técnica, no campo das artes plásticas. No campo da poesia, isso não ocorre. Recordo-me que fiz as minhas melhores poesias quando do momento de crise, em 1997, quando estava internado em Amparo. Tais poemas são valiosos e raros, na minha trajetória.

 

Estes momentos de crise que de tempos em tempos me assolam, são um transbordamento de muitas configurações temáticas e de uso de certos maneirismos, na pintura e desenhos. Na poesia, essa falta de delimitações e contornos do que chamamos “real” é que me força a escrever e, sem dúvida, a querer transmitir minha vida interior para os outros. Assim, durante e após uma crise, é comum a repetição de um tema ou mesmo o uso de neologismos e brincadeiras com as palavras.

 

Desde o início da minha vida como artista plástico, sempre foi uma característica minha a alternância entre os ritmos, as linhas, os volumes, na narrativa visual dos temas, na escolha quase intuitiva das cores. Nunca deixei nada de lado - tudo poderia me servir como material e tema, como até hoje me serve. Seja na colagem de papeis de supermercado que seriam jogados fora, como o uso de papeis mais sofisticados e tinta aquarela, para ornamentar um desenho.

Não havia preferência por esse ou aquele tema ou material na abordagem artística. Os tamanhos dos quadros não foram nunca - como não o são - empecilhos para a criação de uma obra. Desde os menores aos maiores, fixam-me a tensão para que seu conteúdo seja o melhor e mais carregado de significações possíveis. Não haveria consonância em minha arte sem a correlação da minha visão interior com mundo exterior.

Nos meus quadros e poemas há uma referência constante, dos olhos: sejam eles a visão interior (olhar para dentro de nós) , como janelas para enxergarmos o exterior. Isso é patente em muitos quadros e poemas que criei.

Transmitir emoções que passam por mim, é algo verdadeiro. Isso, nas artes visuais. Sempre entendi que minha arte serve para as pessoas verem refletidas nelas suas próprias vidas, valores e inquietudes. A maneira escolhida para alcançar isso, é secundária. O principal é alcançar o objetivo de ver as realidades interiores transpostas em tinta ou palavras. O que eu desejo é expressar de uma forma minimamente coerente minha visão das coisas e de como elas acontecem neste mundo.

No âmbito pictórico, faço muitas referências aos animais e à figura humana. Estas referências transcorrem de forma simples e imediata. É algo que me faz pensar sobre a harmonia que muitas vezes vemos no universo entre a vida natural e a humana. Acho que deveria ser assim, pois a cultura humana tornou-se o que é, hoje, pelo fato de estar erigida sobre o mundo natural. Para mim, os animais trazem uma essência muitos mais harmoniosa e que deveríamos aprender e almejar. Os homens desgarraram-se da natureza. Muito embora possa haver coisas que consideramos abomináveis na natureza, também há algo que escapa, como um mistério, quando presenciamos um gato esgueirando-se com sua musculatura elástica, ou a elegância no voo de um pássaro.

Às vezes tenho a nítida impressão que a poesia é mais dada a efusão plástica do que muitos quadros meus. Parece-me que o mundo invisível torna-se visível quando toco esta dimensão, com as palavras.

Quanto às minhas influências, não me furtarei em dizê-las. Tenho dívidas imensas em relação a Van Gogh, Gauguin, Picasso, Chagal, Miró, Paul Klee e Lukas Lampros (meu pai), nas artes visuais. Na poesia, Ferreira Gullar, Drummond, Adélia Prado, Dante Alighieri, Jorge Luiz Borges, Anna Akmátova, Franz Kafka, T.S.Eliot. Todos estes autores e autoras são uma porção de minha existência como artista. Sem eles eu seria mais oco, cego e mudo do que vivo. Meio morto-vivo entre os mortos. Alguém que não pertenceria a este mundo de dor, mas que se torna mais habitável graças e através da arte que procuramos fazer e criar. Mais humanos a humanizar este mundo que muitas vezes parece-nos caótico e muitas vezes estéril e agressivo.