O CARNAVAL FAZ DO BRASIL, BRASIL

Professor Tiago Menta

E o Carnaval 2020 acabou, no popular “o ano agora começou”...

Este ano experimentei um gosto diferente, especial. Morador de Atibaia há quase 7 anos, depois de quase 30 na capital mineira, o município acabou homenageado pela escola de samba Acadêmicos do Tatuapé.

Por muito tempo eu permaneci como um crítico do Carnaval, naquilo que ele apresenta como “massa”, como fuga da realidade ou até mesmo alienação, hedonismo, exibicionismo. Historiador, versado nas ideias materialistas e dialéticas, a gente as vezes se apega, até em demasia, ao realismo, ao nu e cru e as suas mazelas – sem escapismo, sem descanso. Talvez aqui um pouco a causa de tantos cabelos brancos...

Porém, com a homenagem à cidade, e outras circunstâncias, eu, depois de muito, muito tempo, me permiti “curtir o Carnaval”.

 

Participei, mais ativo ou como observador, de praticamente tudo o que estava ao meu alcance: andar em cima de um trio elétrico, estar no meio do povo, andar por entre os blocos de nossa cidade, observar às nossas manifestações culturais, desfilar no sambódromo do Anhembi pela Acadêmicos do Tatuapé na noite das Campeãs, e no caso em cima de um dos carros (alegorias da escola), observando o sobe e desce de guindastes, a mobilização e organização em torno de uma escola de samba. E, confesso surpresa, eu já consigo observar os dias de folia por um novo prisma, mais aberto. O Carnaval não deixa de ser uma fuga, aliás na origem da festividade, em tempos passados, a ideia era justamente de subverter a ordem estabelecida, hierarquicamente rígida, momentos antes da quaresma cristã – onde a lógica, apolínea, contrastava com os dias dionisíacos vividos anteriormente. Aliás, este contraponto humano, entre o apolíneo, reto, conservador, lógico, racional, ordeiro, e o dionisíaco, subversivo, amoral, festivo, libertino, torto, passional, é a essência do Carnaval e são lições, sobre nós mesmos, que o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) já utilizou em sua filosofia (pra quem quiser se aventurar na leitura, recomendo O Nascimento da Tragédia, Ed.

Companhia de Bolso, 2007) enquanto pensava sobre a arte entre os antigos gregos, no caso as tragédias  - uma perfeita união entre o apolíneo e o dionisíaco (algo que é possível vislumbrar no desfile de uma escola de samba, o racional utilizado na organização do evento, na construção das alegorias, fantasias, na composição do samba, e o passional no samba, nos corpos desnudos, no aglomerado de pessoas nos camarotes e arquibancadas, no sorriso estampado de quem desfila na avenida).

A fuga carnavalesca não é mero escapismo, e os dias envoltos na folia me deram certa clarividência quanto a isto, mas sim fuga enquanto subversão da ordem, no sentido de possibilitar, nas inversões, a possibilidade de crítica, de reflexão, de autoconhecimento e descoberta.

No Brasil de hoje, careta e ressentido, o Carnaval faz ainda mais sentido. Em tempos de retrocesso, ideológico e social, o Carnaval, com sua essência subversiva, talvez seja uma oportunidade do Brasil se reconhecer enquanto Brasil. E esta brasilidade, genuína, não irá, certamente, conciliar-se com o que está aí, sobretudo em Brasília.

Enfim, quem quiser se aprofundar nos aspectos sociológicos, e até mesmo antropológicos do nosso Carnaval, recomendo a obra do antropólogo Roberto da Matta Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro (Ed. Rocco, 1997).

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