A cultura local/regional resiste em Bacurau

Professor Tiago Menta

Dias atrás desfrutava da companhia de minha querida namorada e então decidimos alugar um vídeo no app do Google Play. Assim como eu, também valoriza as produções nacionais, e então nos propomos assistir Bacurau (agosto de 2009, Dir. Kleber Mendonça Filho).

O longa, que reúne atores e atrizes brasileiros e estrangeiros (Sônia Braga, o alemão Udo Kier, como destaques) pode ser qualificado como um misto de suspense, horror, ação.

 

Pra quem observa sem muita atenção, o filme dá a falsa impressão que seria mais uma, entre muitas, produções que tratam da temática nordestina, da seca, seus conflitos, suas peculiaridades, aridez e violência. Ou então, que seria uma produção do tipo “denúncia social”, explicitando e denunciando mazelas, que são várias, entre as populações sertanejas dos mais diversos rincões nacionais. Exemplos? Abril despedaçado (2001, Dir. Walter Salles), Deus e o Diabo na terra do sol (1964, Dir. Glauber Rocha), Guerra de Canudos (1996, Dir. Sérgio Rezende).

 

Bacurau tem uma proposta diferente. E reflexiva, muito reflexiva. A trama gira em torno de um grupo de estadunidenses que, com a complacência do poder local, decide transformar a pequena e “insignificante” Bacurau (afinal a cidade foi retirada do mapa, dos satélites/georeferenciamento) numa espécie de local para caçada humana/esporte. Para deleite, doentio, dos estrangeiros, eles teriam uma espécie de licença para matar, eliminando por completo a população local – subestimada na essência.

 

Numa escalada de violência, o grupo vai eliminando alguns moradores da cidade, mas não contavam com a resistência organizada pela população local. Ainda, a mesma população carrega uma certa ancestralidade cangaceira, preservando esta memória num pequeno museu.

 

O museu, e também a escola local (alvo de intenso tiroteio), tornam-se pontos de forte resistência aos invasores estrangeiros. E aqui a necessária metalinguagem: escola, museu, ou seja, agentes culturais enquanto afirmação de nossas raízes.

 

No presente Globalismo a cultura local, regional, é realmente violentada por forças estrangeiras, posso assim dizer. É fato que seria retrocesso isolar a cultura local e regional, mas retrocesso maior é permitir que estas simplesmente sejam desmanteladas em nome do globalismo.

Na Sociologia o termo/conceito em questão é descrito como aculturação. E assim, ao encontro de duas culturas, ou duas civilizações, uma se sobrepõe à outra. Historicamente, em nosso país, somos em parte o resultado de um processo de aculturação. Discorda, então se pergunte porquê somos uma população de maioria cristã? De fato o cristianismo não é um fenômeno religioso nitidamente americano, e é entendido, até como religião de desertos e não religião de florestas (o que dialoga com nossas raízes indígenas): ideia e conceitos emprestados do geógrafo estadunidense Roger W. Stump, na obra The Geography of religion: faith, place and space (2008).  

 

Hoje, e já há algum tempo, a partir da década de 1950, somos bombardeados por uma cultura hegemônica, realmente imperialista. E então o rock, jazz, o cinema e seus blockbusters (lançamentos arrasa-quarteirões, do tipo filmes Marvel, Star Wars, Harry Potter, etc), os programas de Tv como os talk-shows, game-shows (vejam, como exemplo, o The Voice, The Night).

 

O problema é que tamanho avanço sobre nós, latino-americanos, pode produzir especialmente nos mais jovens a falsa impressão de que as nossas raízes seriam culturas menores, indignas. Quem vê o filme percebe com que desdém os dois brasileiros que integram o grupo de estadunidenses demonstram total desinteresse por conhecer o museu local, motivo de orgulho entre a população de Bacurau. Aliás o filme traz uma cena, com estes personagens perante o grupo de estrangeiros, que é um primor de crítica e porque não um certo “tapa na cara” sobre parte da nossa sociedade, preconceituosa e arrogante – identificada com aquilo que ela, essencialmente, não o é.

 

Aqui está a genialidade do filme, retirar de uma trama de tamanha violência uma lição necessária: a cultura nacional resiste. No caso resiste a uma espécie de invasão estrangeira, porém não nos esqueçamos, especialmente na contemporaneidade política nacional, que a cultura nacional também resiste contra os seus “inimigos internos”.....mas ai, é outra crítica

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